Poiesis e Electrolux

 

Para celebrar seus 100 anos no Brasil e os 10 anos do Taste São Paulo, a Electrolux apresenta a gastroperformance POIÉSIS, concebida pela artista brasileira Simone Mattar.

A experiência materializa, de forma sensorial e contemporânea, os territórios da marca — Inovação para Viver Bem, Sabores que Acolhem e Casa com Alma — ao transformar tecnologia, alimento, arquitetura e convivência em uma jornada imersiva e compartilhada.

POIÉSIS reúne sabores, paisagens sonoras, projeções e esculturas comestíveis em um espaço concebido para acolher, aproximar e criar novas formas de conexão entre as pessoas.

A presença da Electrolux no Brasil, construída ao longo de um século dentro das casas dos brasileiros, é evocada por meio de ingredientes nativos e combinações inesperadas, que traduzem uma relação com a comida que vai além do alimento: uma relação criativa, afetiva e cultural.

Mais do que uma instalação, POIÉSIS propõe uma experiência viva. Um ecossistema sensorial onde passado e futuro se encontram no presente, e onde viver bem é, antes de tudo, viver junto.

A inovação, valor central da Electrolux, encontra ressonância no conceito primordial de Poiesis, entendido como o ato de criar e trazer algo novo à existência.

A tecnologia emerge como expressão da capacidade humana de criar e transformar o mundo. Dissolve-se, assim, a dicotomia entre o artificial e o natural, uma vez que todos os entes coexistem e compartilham o mesmo ecossistema planetário.

O verdadeiro desafio reside em desenvolver uma ética da existência, uma consciência responsável capaz de orientar nossas criações, escolhas e formas de habitar o planeta de maneira a assegurar sua continuidade.

Ato 1 — UTOPIA

Passado, presente e futuro irradiam simultaneamente. O tempo se expande em múltiplas direções; aquilo que já foi, o que ainda acontece e o que permanece em formação coexistem no mesmo campo. Dessa compreensão nasce o Ato 1, tomando o Cone de Luz como eixo visual e conceitual. Proposto pelo matemático Hermann Minkowski em 1908, ele descreve como a luz se move no espaço-tempo, revelando uma continuidade onde o que foi e o que virá se encontram no agora.

O Cone de Luz tem dois lados que se espelham: um carrega a espessura do que foi, o outro a abertura do que ainda se forma. Para a Electrolux, que completa 100 anos no Brasil, 2026 é esse vértice, o momento em que um século vivido e um século por vir coexistem no mesmo gesto. Sobre nós incidem reflexos do passado; tudo o que acontece agora já atua sobre aquilo que ainda não tomou forma.

O primeiro prato é uma escultura comestível. Sobre uma superfície espelhada, tucupi negro traça em estêncil a silhueta de um cone tridimensional. Suspenso acima, um cone de massa crocante de mandioca paira sobre seu próprio reflexo: objeto e imagem, origem e horizonte, indissociáveis. No interior, tartar de pirarucu defumado e pipoca de tapioca. Opção veggie: tartar de pepino e maçã verde. Antes, um shot de erva-cidreira, jambu e gengibre prepara o palato em três gestos distintos: frescor, dormência leve, calor.

A mandioca inaugura esta jornada por razões que vão além do sabor. Cultivada por povos indígenas há milênios, ela atravessa tempos, territórios e modos de vida. O tucupi, derivado de sua raiz, carrega em si a lógica do Ato 1: cor, densidade e sabor emergem da fermentação, da maturação, da ação silenciosa do tempo sobre a matéria. Antes mesmo de adquirir forma, toda transformação já está em curso.

Ato 2 — INDIVÍDUO

Nada existe de forma pronta. O filósofo Gilbert Simondon propôs que o ser não é uma estrutura dada, mas um processo: algo que se torna, continuamente, a partir de tensões internas e relações com o meio. Assim como na cristalização, onde a forma emerge por propagação interna e não por imposição externa, cada indivíduo se constitui como unidade indivisível segundo uma dinâmica própria. Isso vale para pessoas, para organismos, para objetos técnicos. Nenhum deles é coisa acabada: todos estão em individuação, o processo contínuo pelo qual cada ser se torna a si mesmo. É esse indivíduo em formação que o prato materializa como gesto. Cada participante recebe uma escultura de gelo em formato de cristal e um recipiente com cogumelos yanonamis e praline de castanha de baru.

Ao ser despejada sobre o gelo, a calda solidifica instantaneamente, replicando em tempo real o mesmo processo que deu forma ao cristal: matéria em transformação ganha contornos ao encontrar as

condições certas. O gelo é, ele mesmo, um cristal: sua estrutura molecular hexagonal ecoa a geometria da mesa ao redor da qual esta experiência se desenrola.

A fina camada cristalizada, formada pelo encontro entre a calda e o gelo, pode então ser destacada com as mãos e degustada em seguida. O comensal não observa a cristalização à distância: ele a experiencia diretamente, tornando o próprio gesto parte da obra.

Ato 3 — REDES

A individuação nunca é um processo isolado. O que o Ato anterior revelou no indivíduo, este expande para a trama das relações: cada ser em formação afeta todos os outros que também se formam, criando uma rede viva de tensões e conexões. Os mesmos padrões relacionais aparecem na matéria, nos organismos, nas redes eletrônicas e nos ambientes virtuais, revelando uma lógica comum que atravessa escalas e fronteiras. Dos cristais aos circuitos, do sistema nervoso ao microchip, o que emerge não é imposto de fora: nasce do encontro. Criar, nesse sentido, não é impor forma, mas ativar relações. O que chamamos de natural e o que chamamos de artificial revelam-se não como opostos, mas continuidades de um mesmo processo formativo. Como colmeias ou ninhos, a técnica humana também aflora da natureza, e não em oposição a ela.

O crescimento em rede não obedece a uma origem, mas à interação contínua entre propagação e transformação. É esse princípio que orienta o modelo matemático utilizado na criação do vídeo deste Ato, chamado de reaction-diffusion (em português, reação-difusão). Uma força expande, outra modula, e do atrito entre ambas emergem formas que se organizam sem centro, sem origem fixa e sem controle total.

É nessa chave que o prato se constrói, tanto em sua composição visual quanto gastronômica. Sobre uma placa de vidro escuro, um molho de cambuci desenha, em estêncil, uma trama de ramificações douradas que evoca simultaneamente sistemas orgânicos e circuitos eletrônicos. Ao centro repousa uma escultura comestível em formato de icosaedro, sólido platônico de vinte faces, elaborada em delicado mousse de robalo com coração de gema curada e gel de dashi dourado. Opção veggie: mesma versão com pupunha. O icosaedro pode ser retirado com as mãos ou delicadamente rompido ao toque da colher: comer, aqui, também se torna um gesto performático.

Ato 4 — ENXAME

Há formas de inteligência que transcendem o indivíduo. Nas colmeias, cada abelha responde a estímulos locais sem conhecer o todo: ainda assim, o conjunto se organiza, decide e poliniza com uma precisão que nenhuma delas alcançaria sozinha. Esse princípio de coordenação descentralizada, inicialmente observado na biologia, passou a inspirar algoritmos computacionais capazes de resolver problemas complexos sem comando central. A inteligência de enxame se estende, assim, do vivo para o

tecnológico. Natural e artificial revelam-se como continuidades de um mesmo processo, apontando para futuros cada vez mais híbridos. Abelhas, formigas, cardumes, redes neurais, algoritmos e robôs cooperativos: diversos são os sistemas em que a inteligência emerge da relação entre múltiplos agentes, e não de uma única consciência organizadora.

O mel é o ingrediente central do terceiro prato: síntese material da inteligência de enxame. Na tuile que acompanha o prato, animais, a mão humana e objetos tecnológicos coexistem em uma mesma composição, sugerindo uma ecologia em que nenhum desses elementos ocupa posição isolada.

Creme de mel e cereais com espelho de açafrão e coroa de especiarias; o mesmo ingrediente atravessa diferentes temperaturas, estados e texturas, multiplicando suas nuances como um sistema em transformação.

Ato 5 — POÍESIS

O quinto ato condensa e faz convergir os conceitos semeados ao longo de toda a experiência.

A escultura faz alusão à Quimera, figura mitológica híbrida, composta por partes de diferentes animais. Filosoficamente, essa imagem é mobilizada em Poíesis para representar a composição de naturezas distintas, especialmente ao tensionar tecnologia, biologia e natureza, aqui compreendidas não como domínios opostos, mas como instâncias de uma mesma realidade em contínua transformação.

Em Poíesis, natural e artificial, orgânico e técnico, humano e não humano coexistem como evidência de que tais fronteiras talvez nunca tenham sido tão sólidas quanto supomos.

Criar é transformar potência em forma, movimento em presença. A própria origem grega de Poíesis remete a esse gesto de trazer algo à existência. Nesse contexto, a razão não se dissocia da emoção, nem a matéria da imaginação. A autopoiese é a capacidade dos sistemas vivos de engendrarem e sustentarem sua própria organização por meio de relações internas, amplia essa reflexão ao demonstrar que a produção de sentido emerge de processos dinâmicos de organização e continuidade. Tecnopoiese nomeia a participação ativa dos sistemas técnicos nos processos de criação e transformação do mundo, reconhecendo que, assim como a biologia organiza e perpetua a vida, a técnica também engendra novas formas de existência, dissolvendo fronteiras rígidas entre o natural e o artificial.

O prato se organiza como uma escultura de duas faces. Do lado de cima, uma forma pontiaguda de entremet de chocolate intenso, recoberta por chocolate tingido naturalmente com clitória azul e do lado de baixo; a continuação da escultura em resina azul serve de suporte da comida. O azul da escultura ressoa o azul da Electrolux, atravessando ambos os lados da escultura. Entre aquilo que desaparece e aquilo que permanece, a obra se desdobra simultaneamente como experiência e vestígio. É nesse gesto que a Electrolux celebra cem anos no Brasil, uma trajetória que permanece menos pela estabilidade de uma forma do que por sua capacidade contínua de transformação.