Conceito

Gastroperformances


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Gastroperformance é um neologismo que surge no cenário contemporâneo com a finalidade de auxiliar na compreensão de uma nova forma de expressão. Por meio de ações e happenings, propõe uma experiência multissensorial sobre as diversas questões que envolvem o ser humano durante o ato de comer. O sabor e o
preparo do alimento são tecnicamente trabalhados de forma a potencializar o discurso proposto e forças que a gastroperformance busca provocar.

A transdisciplinaridade é premissa imprescindível deste conceito que une a gastronomia à outras linguagens como design, música, performance, escultura, pintura etc. O resultado é uma vivência que parte da materialidade efêmera do alimento e suas possibilidades sensíveis para provocar uma transformação acerca do conteúdo que o envolve.

Paradigmas da Gastronomia

A arte tem uma relação intrínseca com a materialidade da comida: cores, formas, texturas, suportes, etc. Toda a apresentação do alimento desde que existe a história, independente de se constituir como cultura local ou tendências globais, passou por definições coletivas e individuais, no campo da estética e do design.

Não obstante, a gastronomia como disciplina pouco se relacionou ao pensamento crítico das artes, sendo chamado de “o mais arraigado de todos os hábitos”. No aspecto da produção de pensamento, a gastronomia se constitui principalmente
através da antropologia; aspectos que vão desde o nutricional ao modo de vida, valores, crenças, mitos, ritos, moral entre outros tópicos. A comida enquanto tal – isto é, intrinsecamente enquanto comida –tem sido, talvez, um objeto menos interessante para a antropologia do que suas implicações sociais.

Exemplo de Gastroperformance:
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Um paralelo com o Expressionismo

No entanto, na gastroperformance a comida é o centro das atenções e é oposta àquela contemplativa e passiva. Propõe recortes junto ao pensamento crítico, partindo do amplo movimento expressionista e de outras tendências da arte e do pensamento contemporâneo que auxilie o ser humano a captar a existência e a afirmar a subjetividade.

A idéia é fazer transparecer o substrato que está sob uma realidade aparente, de refletir o imutável e o eterno do ser humano e da natureza, além de alargar as dimensões da imaginação. Como ponto de partida, a gastroperfomance reflete uma atitude, uma nova forma de entender o ato de comer, que aglutina diversas linguagens e tendências.

Diversas expressões da arte foram pautadas nos preceitos do expressionismo, este movimento não se limitou apenas na influência sob as linguagens, mas modificou o modo de pensar das pessoas. Alguns artistas adotaram este pensamento e, com um olhar transdisciplinar, criaram novos paradigmas em suas linguagens de origem.

Detalhe da obra O Grito.
Edvard Munch , 1893

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Teatro Tadeus Kantor

Tadeus Kantor, transformou o conceito de dramaturgia em seu tempo. Propôs um teatro que se constrói através da ação e não pelo aparato de reprodução literária e que até hoje influencia a linguagem performática.

Koncert Morski.
Tadeusz Kantor, 1967

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Teatro Dança Pina Bausch

A artista Pina Bausch é denominada como “a expressionista da dança”, levou o termo a sua potência máxima ao se apropriar, além das linguagens do teatro e da dança, também de elementos da realidade humana: medos, tristezas e outros conflitos. Sentimentos que não eram evidenciados no balé clássico.

Bandoneón.
Pina Bausch, 1987

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Cinema Dogma 95

O movimento Dogma 95 criou um cinema mais realista como forma de discutir e criticar diferentes aspectos antagônicos do cinema contemporâneo, como o ideal ilusório do cinema clássico e a política dos autores da novelle vague do cinema moderno. O movimento criou um cinema coletivo (negando a autori) e uma estética voltada à verdade e ao real (negando os artifícios e a ilusão).

The Idiots.
Lars von Trier, 1998

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Family dinner, mother holding platter with roast on it
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Gastroperformance: uma ruptura

Em quase todas as religiões, o ato de comer é associado a uma simbologia que vai além da própria nutrição. A ideia de paz, harmonia, felicidade e beleza parecem obrigatórias nesse ato, e velam outros sentimentos considerados indesejáveis mas que estão ali, invisíveis, não-ditos. Neste contexto se estabelece a idealização das relações entre as pessoas e a família entorno da mesa.

A gastroperformance atua dentro destes temas tensionando-os através da relação entre alimento, indivíduo e coletivo. Aqui o sentido do alimento não está ligado ao seu valor funcional, mas como materialização desse jogo de forças invisíveis que o rodeia.

O corpo abordado na experiência da gastroperformance é o chamado “corpo sem órgãos”. Em outras palavras, não é aquele que se nutre biologicamente do alimento material, de forma funcional e anestesiada, mas de maneira vibrátil assimila o aspecto imaterial daquele alimento.

“Na gastroperformance é oferecido um alimento não-funcional para um corpo imaterial”.

Fotografias de cenas de jantar em diversas culturas que revelam o sentimento de harmonia e comunhão da família.