Conceito

Em grego, a palavra “aletheia” se traduz como “verdade”, mas seu significado hoje difere

do seu significado na Grécia Antiga.

 

A (negação) + Lēthe (esquecimento, ocultação)

Aletheia é aquilo que é lembrado, aquilo que é revelado como verdade à medida que emerge da obscuridade.

Na mitologia grega, esse conceito é personificado pela Deusa da Verdade, Aletheia.

A performance gastronômica presta homenagem a uma cosmologia na qual a verdade é tudo

aquilo que é lembrado

A gastroperformance Aleteia explora os desdobramentos da memória no espaço-tempo, liricamente indagando sobre a itinerância corporal, geográfica e espiritual.

A pesquisa conceitual e narrativa se apoia em três obras que assumem a perspectiva de um viajante.

Apesar de serem oriundas de países e contextos históricos diferentes, todas elas chegam à conclusão de que só o movimento pode levar à eternidade.

Documentário que inaugurou um novo gênero do cinema, o filme-ensaio, Sans Soleil defende que lembrar é uma forma de viagem no tempo.

A montagem propõe que o deslocamento pelo mundo — passamos pelo Japão, Guiné-Bissau, Islândia, entre outros — é um movimento da memória.

A linha narrativa não é tecida pelo tempo linear, mas sim pelo ritmo das lembranças, que se encadeiam em associações poéticas e filosóficas.

O livro mais conhecido da autora premiada com o Nobel de Literatura, Flights é uma apaixonada homenagem ao viajante.

Em curtas vinhetas, Tokarczuk descreve a partida, o fluxo, o pernoite, o estrangeiro, o encontro, o desencontro, a espera, a estrada e a chegada.

“Parada ali no barranco, olhando para a correnteza, percebi que o movimento é sempre melhor do que o repouso; que a mudança é mais nobre do que a permanência; que o que é estático degenera e apodrece, vira cinza, enquanto o que está em movimento pode durar para sempre.”

 

Ficcionalizando com a voz de Marco Polo, Calvino mostra que a memória é o território onde imaginação e realidade se misturam. O viajante torna-se poeta, e o mapa torna-se metáfora. Assim, a memória é a própria linguagem com que se conhece o mundo. Ela é ao mesmo tempo lembrança e invenção, ruína e construção, perda e desejo.

Calvino faz dela um ato poético e existencial: lembrar é continuar criando o mundo, mesmo o que já se perdeu.

Referências

Marker percorre o Japão, a África, a própria mente; seu narrador é arqueólogo da lembrança, navegando entre o registro e o devaneio.

Calvino faz Marco Polo atravessar cidades imaginárias — viagens interiores que meditam sobre o tempo, o ser, o instante. Tokarczuk cria personagens nômades, corpos em trânsito que cruzam fronteiras físicas e metafísicas, como se o mundo inteiro fosse um território de memória e desejo.

O projeto Aletheia nasce dessa reflexão sobre memória, tempo e deslocamento

 

Referencias

Na correspondência secreta entre Marker, Calvino e Tokarczuk pulsa a essência de Aletheia.

Todos desenham cartografias do invisível.

Não descrevem o mundo — o recriam, cada um à sua maneira, num gesto de atenção poética. A memória não é linha, mas rede; algo que se expande, conecta, se entrelaça, se transforma.

Aleteia, do grego “desvelamento”, é aquilo que vem à luz, o eixo invisível que atravessa todas as obras. Eles partem da mesma intuição, de que a verdade não se possui, mas se revela aos poucos, no movimento, na percepção, na memória.

A gastroperformance é dividida em cinco atos:

  1. Verdade
  2. Vento
  3. Tempo
  4. Eco
  5. Destino

Ato 1 Verdade

O público entra no espaço imersivo da gastroperformance, onde estrelas projetadas brilham. Vozes em diferentes idiomas narram memórias pessoais, até que a voz do narrador assume, guiando o público por uma narrativa que se move através de camadas de espaço e tempo.

Para o Primeiro Ato, transformamos a mesa no rio Lete, uma corrente que carrega as memórias terrenas de todos que viveram. Ela flui para a Terra do mundo através da fonte da revelação, onde a lembrança assegura o reinado da deusa da Verdade. A narração entrelaça contação de histórias e devaneio para tornar conceitos abstratos tangíveis.

Os convidados sentam-se ao redor da mesa-escultura quando a entrada chega. Uma figura moldada a partir de uma escultura de Aletheia é servida como uma panna cotta de queijo de cabra com mel e puxuri.

Ato 2 Vento

O Ato Dois conecta lugares na Terra que parecem desconectados à primeira vista, mas que na
verdade estão ligados por uma força invisível, o vento. O narrador nos conta sobre a época em que a deusa da Verdade seguiu a rota dos grãos de areia, levados pelo vento do deserto do Saara através do Atlântico. Guiada por ele, a deusa da Verdade traça o movimento dos grãos de areia do Deserto do Saara através do Oceano Atlântico até a floresta amazônica, onde nutrem seu verde exuberante. Dois gigantescos corpos terrestres, aparentemente opostos e isolados, são ligados pela narração não pela geografia, mas pela ressonância.

A massa inicial emprega uma técnica de estêncil usando farinha de mandioca torrada, evocando os grãos do Saara. Abaixo dela encontra-se um escondidinho/hachis parmentier feito com pirarucu, o maior peixe de água doce do mundo, nativo da bacia amazônica.

Ato 3 Tempo

O terceiro ato questiona a linearidade do tempo e sua relação com o espaço. Aletheia nos leva
às Ilhas Diomedes, onde uma linha invisível é capaz de desvendar a verdade.

Desafiando essa noção de linearidade, os fusos horários das ilhas diferem em quatorze horas, apesar de estarem a apenas três quilômetros de distância. No inverno, o mar entre ontem e amanhã congela, formando uma ponte. O narrador relembra uma ocasião em que Aletheia tentou atravessá-la.

O primeiro prato chega em uma travessa transparente, onde duas vieiras ao mil-folhas flutuam em ajo blanco, cobertas com uma telha em forma de onda.

O primeiro prato chega em um prato transparente, onde duas vieiras em mil-folhas flutuam em ajo blanco, cobertas com uma telha em forma de onda.

Ato 4 Eco

No Ato Quatro, Aletheia visita lugares ao redor do mundo onde diferentes culturas encontraram uma maneira de preservar a verdade através da memória coletiva, transmitida por rituais e tradições transmitidas através das gerações. Ela nos leva a um santuário que foi destruído e reconstruído a cada vinte anos por mais de mil e quinhentos anos. Ela também nos guia por um antigo festival no qual um talismã de boa sorte é servido como alimento ritual, compartilhado com deuses dragões. Finalmente, Aletheia nos leva a uma nação onde a verdade nasce do solo, semeada e cultivada através de rituais que entendem a comida como o elo entre humanos e deuses. Se os atos anteriores tendiam a uma paleta mais monocromática, este é uma explosão de cores, sons e sabores.

O segundo prato é o talismã oferecido como alimento ritual no festival do dragão, conforme descrito pelo narrador. Na performance gastronômica, os talismãs são amarrados a uma escultura de dragão, e então passados ​​ao redor da mesa para que cada comensal possa pegar um.

Ato 5 Destino

No ato final, Destino, Aletheia nos conduz de volta ao templo de Delfos, onde profecias oraculares ainda ecoam. Neste ato, o público é convidado a se orientar em direção ao imprevisível. Toda a sala é tomada por uma galáxia púrpura, evocando antigas cosmologias em que o destino era escrito no movimento das estrelas. O cosmos é onde destino e fado começam a convergir.

Os comensais tiram sua sorte e traçam os fios de seu destino, materializados em uma sobremesa composta por centenas de delicados fios de açúcar fiado com infusão de lavanda.